Visão geral


A adoção de medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, tem mudado os padrões de consumo de alimentos. À medida que a demanda muda nas categorias de alimentos e bebidas, lideranças de supply chainprecisam se preparar para mudanças nas previsões, na gestão de estoque, no abastecimento e no planejamento de produtos.

Os medicamentos a base de GLP-1 estão por toda parte. Talvez você já tenha ouvido falar deles com os nomes Ozempic, Mounjaro ou Wegovy e provavelmente alguém que você conhece esteja tomando um desses.

Milhões de consumidores em todo o mundo já mudaram seus hábitos de consumo de alimentos por causa disso.

Para os líderes da cadeia de suprimentos do setor alimentício, isso não é uma moda passageira que vai passar nos próximos meses. Esses medicamentos vieram para ficar. Na verdade, muitos deles já existem há 20 anos.

Mas a recente adoção generalizada já causou impacto na demanda do setor alimentício. A questão agora é: você consegue adaptar sua cadeia de suprimentos rápido o suficiente para reagir antes de ficar para trás?

 

O medicamento que está afetando discretamente as vendas de alimentos

Há três anos, em 2023, o CEO do Walmart dos EUA deu a entender que havia um motivo crescente de preocupação nos dados da empresa. Os volumes de vendas de alimentos estavam caindo.

Da mesma forma, o CEO da Novo Nordisk, a marca que fabrica tanto o Ozempic quanto o Wegovy, relatou ter recebido várias ligações preocupadas de líderes do setor alimentício. Em todas as ligações, o assunto era o estrago que os medicamentos dessas marcas estavam causando nas vendas de alimentos.

Esses remédios, que foram desenvolvidos inicialmente para ajudar pacientes a controlar o diabetes tipo 2, agora se tornaram a categoria de medicamentos que mais cresce na história farmacêutica moderna. Uma estatística impressionante quando você pensa em todos os outros concorrentes.

Um em cada oito adultos dos Estados Unidos está tomando algum tipo de GLP-1, no Brasil, o uso das canetas cresceu 88% em 2025.

As previsões da Circana mostram que, até 2030 (daqui a pouco mais de 3,5 anos), as famílias com alguém que usa GLP-1 vão representar 35% de todas as vendas de alimentos e bebidas nos Estados Unidos.

Para os líderes da supply chain alimentícia, essa é uma estatística que precisa ser acompanhada de perto. As engrenagens já estão girando para uma grande mudança na demanda em todo o mundo.

É uma mudança que vai alterar drasticamente seus modelos de previsão, afetar suas políticas de estoque e colocar à prova suas relações com fornecedores. O impacto vai além da demanda por alimentos. As cadeias de suprimentos de embalagens de alimentos também estão sob pressão, à medida que as marcas adaptam produtos e embalagens para quem usa GLP-1. De rótulos com a indicação “GLP-1 Friendly” a mensagens em destaque sobre proteínas, essas mudanças são uma resposta direta às novas preferências dos consumidores.

Seu planejamento de demanda está preparado para essa mudança? Ou você já está tentando recuperar o atraso diante de uma revolução que está definindo o setor?

Estatísticas em resumo

1 em cada 8adultos nos EUA que tomam GLP-1 atualmente (KFF)
35%Vendas de alimentos e bebidas em lares que usam GLP-1 até 2030 (Circana)
137 milhõesAdultos nos EUA clinicamente elegíveis para tratamento com GLP-1 (BIDMC)

 

Como os hábitos de compra dos usuários de GLP-1 vão mudar o consumo de alimentos

Os produtos que os usuários de GLP-1 deixam de comprar e aqueles que passam a comprar podem ter implicações dramáticas para a indústria alimentícia. Dá pra argumentar com bastante convicção que isso já está acontecendo.

Embora seja verdade que os usuários do Ozempic compram menos comida porque comem menos, a realidade é que seus hábitos de compra também evoluem em torno da nutrição e da alimentação saudável. E isso é uma ressalva comercialmente significativa para quem está na cadeia de abastecimento de alimentos.

Uma pesquisa da Universidade de Cornell, publicada em dezembro de 2025, com base em dados de compras domésticas da Numerator, acompanhou os gastos com mantimentos antes e depois do início das prescrições de GLP-1.

A pesquisa sugere que os gastos com compras de alimentos caem 5,3% em apenas 6 meses depois que alguém da família começa a usar o GLP-1.

Mas em famílias com renda conjunta mais alta, o número é ainda maior: 8,2%.

No entanto, uma pesquisa da UC Davis mostra que quem usa GLP-1 consome 65% menos bebidas açucaradas, 62% menos álcool e 55% mais frutas e verduras.

A pesquisa também mostra que as vendas de salgadinhos, como batatas fritas, caem 10%, com doces, produtos assados, biscoitos e confeitos também sofrendo queda.

Por outro lado, as vendas de iogurte, frutas frescas, barras de proteína e lanches à base de carne apresentam crescimento.

Esses dados mostram que não é só o volume geral de comida que é afetado pelos remédios para inibir o apetite, mas que também há um lado educativo nessa mudança de hábitos.

Curiosamente, muitos usuários do Ozempic ou do Mounjaro relataram ter sentido náuseas ou enjoos depois de comer alimentos altamente processados e ricos em gordura.

Pelo que se observa, também parece haver um impacto enorme na tolerância dos usuários ao álcool. Ou seja, não são só os fornecedores de alimentos que vão sentir a queda na demanda. Principalmente com a mudança nos perfis dos consumidores, já que a Geração Z, em especial, bebe muito menos do que as gerações anteriores.

As mudanças na alimentação, que agora se baseiam em razões fisiológicas em vez de apenas na força de vontade, sugerem que essa mudança é uma evolução permanente, e não uma moda passageira que vai desaparecer com o tempo,

Como planejador da cadeia de suprimentos no setor de alimentos ou bebidas, é muito provável que os dados de demanda que você está usando para fazer suas previsões já estejam desatualizados.

 

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5 pontos críticos que lideranças da cadeia de suprimentos de alimentos precisam resolver

1. Os modelos de previsão de demanda são construídos com base em dados históricos errados

Cada uma das previsões de demanda que você usa hoje foi, quase com certeza, criada com dados históricos baseados em um consumo que está mudando drasticamente.

Os dados anteriores ao GLP-1 não servem mais para a indústria de alimentos. Agora estamos na fase de adoção generalizada do medicamento, o que significa que seus dados já passaram da “data de validade”. E, além disso, muitos dos modelos em uso agora superestimam a demanda por SKUs ultraprocessados e ricos em calorias. Especialmente à medida que a adoção acelera rumo a 30 milhões de usuários nos EUA até 2030.

No momento, os medicamentos GLP-1 são tomados por injeção, um método que pode afastar alguns candidatos em potencial. Mas os comprimidos orais estão entrando na jogada, o que pode fazer o mercado crescer ainda mais rápido, já que quem tem nojo de injeções vai encontrar uma maneira mais fácil e menos trabalhosa de controlar o peso.

Para gerenciar suas previsões, você vai precisar enriquecer seus dados com as novas informações que vêm do mercado. As empresas que fizerem isso rapidamente terão uma vantagem significativa sobre aquelas que esperam até que o sinal fique inequívoco, ou que acreditam, erroneamente, que essa é uma fase que vai passar com o tempo.

2. Design de embalagens e racionalização de SKUs

Quem usa GLP-1 come menos. Já sabemos que é assim, já que esse é o principal motivo para usar o medicamento.

É provável que comam porções menores por refeição, mas também busquem uma alimentação mais saudável, e talvez tenham menos interesse em embalagens econômicas feitas para dietas mais calóricas. Um estudo com consumidores de 2024 mostrou que 95% dos usuários de GLP-1 disseram comer porções menores, 78% procuravam embalagens menores e 82% buscavam ativamente alimentos com benefícios nutricionais extras.

É muito provável que os fabricantes agora tenham um incentivo comercial para oferecer embalagens menores ou direcionar suas ofertas e produtos para opções mais saudáveis.

Uma pesquisa da PWC aponta para isso, sugerindo que a adoção do GLP-1 está contribuindo para um afastamento dos padrões tradicionais de consumo baseados em volume, forçando as empresas afetadas a reavaliar suposições de longa data sobre valor, comportamento de compra e portfólios de produtos.

Essas mudanças terão grandes implicações na cadeia de suprimentos.

Novos formatos de embalagem alteram as configurações das caixas, os requisitos de armazenamento e a lógica de reabastecimento. E a reformulação exigirá novas fontes de abastecimento de ingredientes.

Fabricantes conseguirão manter os mesmos fornecedores depois de mudarem para opções mais saudáveis? Ou precisarão mudar radicalmente com quem trabalham e competir com outros por esses mesmos produtos, sem ter nenhum relacionamento pré-existente?

Para quem trabalha na cadeia de suprimentos, isso significa maior complexidade operacional num momento em que a visibilidade da demanda está se deteriorando rapidamente.

3. Risco relacionado a estoque e capital de giro

Um dos riscos mais significativos é o relacionado ao estoque e ao capital de giro imobilizado nele. Embora seja improvável uma queda repentina na demanda, a possibilidade de uma mudança mais lenta na demanda afetar os contratos de longo prazo com fornecedores é significativa.

Muitos fabricantes, atacadistas e distribuidores do setor de alimentação operam com compromissos de volume por anos, acordos com fornecedores e contratos de compra. Se a demanda for diminuindo aos poucos ao longo da vigência desses contratos, as empresas podem acabar ficando com estoque excedente, alocando espaço de armazém de forma ineficiente e imobilizando capital de giro em produtos que não saem mais na mesma velocidade.

Lideranças da cadeia de suprimentos devem testar cenários de longo prazo em todas as categorias que possam estar sujeitas a essas mudanças.

Os compromissos futuros de volume ainda estão alinhados com os padrões prováveis de consumo? Quanto capital de giro poderia ficar imobilizado se a demanda ficasse aquém das premissas atuais? E os acordos com fornecedores, as políticas de estoque e as previsões são flexíveis o suficiente para se adaptarem caso as tendências de consumo mudem nos próximos cinco anos?

As organizações que identificarem essas mudanças com antecedência estarão em melhor posição para proteger tanto os níveis de serviço quanto o capital de giro. Ao ajustar os planos de compras, as políticas de estoque e os compromissos de volume futuros antes que a tendência se torne evidente, elas podem evitar o acúmulo desnecessário de estoque e manter dinheiro disponível para investimentos mais produtivos em outras áreas do negócio.

4. Estratégia de fornecedores e abastecimento

O surgimento e a adoção de longo prazo dos medicamentos à base de GLP-1 terão implicações diferentes no abastecimento de ingredientes. Há um aumento inerente na demanda por alimentos frescos, vegetais, proteínas, fibras e ingredientes ricos em nutrientes.

Raiz de chicória, inulina, alulose e proteínas de carne de alta qualidade estão todas com dados de demanda em alta.

Açúcares refinados, ingredientes de lanches altamente processados e ingredientes alcoólicos estão enfrentando quedas acentuadas.

Para os líderes de compras e da cadeia de suprimentos, essas mudanças significam fazer uma auditoria na sua exposição aos fornecedores. E, fundamentalmente, estar à frente da curva na busca por alternativas que se encaixem melhor no que os dados estão indicando.

Quais relações com fornecedores estão concentradas em categorias em declínio?

Quais relações apresentam risco se a demanda continuar caindo?

5. O risco da “janela de recuperação”

Existe uma suposição na indústria alimentícia de que os efeitos do GLP-1 são temporários. Essa é uma das suposições mais perigosas que você pode fazer.

É compreensível supor que, à medida que os pacientes atingem o peso desejado e param de tomar a medicação prescrita, seu apetite volte aos níveis normais. E assim, os padrões de compra se retomam.

As evidências simplesmente não sustentam essa teoria.

Pesquisas clínicas e dados comportamentais sugerem que os medicamentos com GLP-1 atuam como modificadores de comportamento a longo prazo. Mesmo depois que o tratamento termina, os hábitos alimentares nunca voltam totalmente aos níveis anteriores ao tratamento.

Se a sua cadeia de suprimentos for construída com base na expectativa de que o consumo dos clientes vai se recuperar, e isso nunca acontecer, você provavelmente vai enfrentar um enorme excesso de estoque nas categorias erradas e uma falta enorme nas categorias certas.

Os dados mostram que esse não é um processo cíclico. É linear.

 

Mas calma!

Este artigo não tem como objetivo causar pânico no setor de alimentos. Pelo contrário, é uma reflexão cautelosa sobre o que os dados estão nos dizendo sobre o futuro.

Um relatório do CEO da Hershey’s diz que eles viram apenas um impacto leve dos medicamentos à base de GLP-1 em 2025, e que isso continuou em 2026. A Mondelez e a Nestlé também deram garantias parecidas aos seus investidores. A Novo Nordisk chegou até a reduzir recentemente sua previsão de crescimento para 2025 em relação aos dois medicamentos que oferece, mostrando uma adoção “mais lenta do que o esperado”.

Isso pode ser por causa de preocupações com os efeitos colaterais, muitos dos quais ainda estão sendo descobertos e monitorados, como desconforto gastrointestinal, queda de cabelo e perda de densidade óssea. Ou simplesmente pelo método de administração por injeção que já mencionamos. Em todo o mundo, onde os EUA lideram a adoção, tanto o mercado europeu quanto o asiático estão bem longe de atingir os mesmos níveis de uso.

Depois, tem a questão do preço: nos EUA, os custos dos medicamentos à base de GLP-1 variam de US$ 900 a US$ 1.400 por mês. Não é uma quantia pequena. Mas, com o aumento da concorrência entre as empresas farmacêuticas e a expansão da cobertura de seguro (especialmente nos EUA), é provável que esses custos caiam à medida que o mercado amadureça.

O impacto comercial nos resultados financeiros do setor de alimentos não é dramático no momento, mas os sinais de alerta estão bem evidentes. As decisões da cadeia de suprimentos relacionadas a contratos com fornecedores, capacidade de produção, portfólios de SKUs e lógica de reabastecimento podem levar de 18 a 36 meses para serem implementadas.

Então, não tem o que ficar na dúvida: agora é a hora de agir, antes que os dados deixem de ser um sinal de alerta e se tornem o “canário na mina”. E com os comprimidos de GLP-1 chegando ao mercado, espera-se que a adoção acelere.

 

6 ações que lideranças de supply chain estão tomando

O desafio para os líderes da cadeia de suprimentos de alimentos é transformar essa consciência em ações concretas de planejamento. Aqui estão sete passos práticos que as organizações já estão adotando:

Checklist para os impactos do GLP-1

1. Recorrer a especialistas

Quando você se depara com novos desafios, trabalhar com um fornecedor de soluções para a cadeia de suprimentos que prioriza as pessoas, como a Slimstock, pode te ajudar a aproveitar a experiência de mercado e a ampla gama de casos de uso que nossa solução aborda — e já abordou. Enquanto muitos fornecedores deixam seus clientes se virando sozinhos, a Slimstock é um recurso sempre disponível, oferecendo consultoria especializada e treinamento gratuito para todos os usuários das soluções da Slimstock.

2. Segmentar o portfólio por riscos decorrentes do GLP-1

Alinhe as estruturas de categorias à demanda emergente dos consumidores. Agrupe produtos ricos em proteínas, funcionais e voltados para o bem-estar separadamente das categorias ultraprocessadas e em declínio, permitindo que os planejadores façam previsões, invistam e otimizem o estoque de acordo com as mudanças nas preferências dos consumidores.

3. Considerar cenários de adoção do GLP-1 nas previsões de 12 a 36 meses

Não confie em dados históricos anteriores à adoção do GLP-1. Analise curvas de adoção baixa, média e alta e teste seu estoque em relação a cada uma delas. Cenários como a chegada do GLP-1 em comprimidos podem desencadear uma adoção mais rápida e generalizada, e isso deve ser levado em conta no seu planejamento.

4. Auditar a base de fornecedores

Identifique quais fornecedores de ingredientes e matérias-primas estão em categorias em declínio. E comece a conversar com antecedência sobre flexibilidade de volume antes que as renovações de contrato te obriguem a tomar decisões precipitadas.

5. Fazer testes de estresse no estoque de segurança e nas políticas de reposição

Revise os parâmetros para seus SKUs de maior risco. Políticas ajustadas para uma demanda estável ou em crescimento vão gerar excesso de estoque em categorias em declínio.

6. Revisar a estratégia de embalagem

A tendência para embalagens menores e mais concentradas em nutrientes vai mudar a configuração da linha de produção, as taxas de enchimento das caixas e os custos logísticos. Faça uma simulação do impacto na cadeia de suprimentos antes de tomar decisões comerciais.

 

Eliminando o excesso da sua cadeia de suprimentos

Mudanças estruturais na demanda são raras na indústria alimentícia.

O boom dos produtos veganos e à base de plantas no final da década de 2010 foi o último grande evento. Mas isso foi impulsionado mais pela preferência do consumidor do que por intervenções médicas.

A revolução do GLP-1 é totalmente diferente e veio para ficar. Um medicamento que reajusta o apetite de milhões de pessoas em todo o mundo, com um efeito cumulativo sobre o que e quanto elas compram, e quais alimentos elas ignoram no supermercado, vai ter uma influência enorme no setor.

Para os líderes da cadeia de suprimentos nos setores de alimentos e bebidas, seus padrões de demanda vão mudar. Na verdade, eles já mudaram. Sua empresa tem a infraestrutura de planejamento, a agilidade nas previsões e os relacionamentos com fornecedores necessários para se adaptar e prosperar? Você está trabalhando com especialistas que possam te ajudar a remar contra a corrente? Você está agindo com antecedência suficiente para moldar sua adaptação e adoção nos seus próprios termos? Ou vai acabar tendo que reagir à mudança quando o impacto nas margens se tornar impossível de ignorar?

Os dados estão aqui. A janela de oportunidade para agir está bem aberta. A única pergunta é: você tem coragem para isso?

 

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